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Artigo: A compaixão

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Dom Tomás Vaquero, que foi nosso Bispo por mais de duas décadas, por meio de quem fui crismado e ordenado padre, contava uma historinha simples e interessante:- “uma senhora idosa ia todos os dias à missa, não perdia uma e, para cada missa, colocava em uma caixinha um grão de milho, desses de pipoca. Dizia que apresentaria ao Senhor quando no céu chegasse. Num dia, a sua comadre que também ia à missa, tropeçou, caiu e ficou machucada. A senhora, então, aflita providenciou cuidados e socorro para a comadre caída. Chegou meio atrasada na missa. Quando ela morreu, colocaram dentro do seu caixão a sua caixinha com os grãos de milho. Ao chegar diante do Pai Eterno ela apresentou os milhos com as tantas missas que havia participado na terra. A sua surpresa era que estava muito leve; parecia ter só um grãozinho lá dentro. Ela, meio sem graça, se apressou em dizer que a única vez que se atrasou para a missa, foi o dia em que acudiu a comadre que se machucou. E o Pai eterno lhe respondeu que nesse dia: aquela missa lhe valeu por todas”. 

A historinha simples serve para ensinar que se a eucaristia que celebramos, se não nos levar à pratica sincera da caridade, se não despertar em nós a compaixão, não nos valerá muito, não será frutuosa em nossa vida a eucaristia que não nos leve até a fraternidade. A compaixão não se reduz a um gesto frio de uma moedinha que se dá como esmola e que talvez não dê para comprar um pão. A compaixão nos leva a descer de nossos “cavalos”, colocar remédio nas feridas externas e internas dos que estão caídos e apresentá-los na hospedaria, a Casa do Senhor que acolhe a todos o seus filhos.

Em nossos dias o sentimento da misericórdia, da bondade e da própria compaixão com os mais desprezados, parece fazer acender a ira nos que classificam as pessoas por sua situação econômica negando direito de viver a qualquer ser humano mal colocado na “pirâmide” social. Quantos naufrágios assistimos no mar Mediterrâneo? Quantos deslizamentos em área de risco? Quantos muros em países ricos para barrar o acesso de migrantes, ou muros que alimentam discórdia e inimizade como os altos muros que cercam a Palestina?

A compaixão é mais do que um pequeno remorso ou um estéril “que dó!” A compaixão nos coloca no lugar daquele que sofre para tentar compreender o sentimento que lhe castiga; sentir a dor que já se tornou companheira dos seus dias; sentir na pele a humilhação dos que não tem o mínimo ou perderam o que lhe restava. Ser compassivo como Jesus, como santa Dulce, ou madre Teresa que enfrentaram com doçura o olhar severo dos que só sentiam “pena” e nada mais. Ser misericordiosos, compassivos com os que perderam o sentido e o desejo de viver e se entregaram ao triste mal do vício é acender a lâmpada da seriedade numa sociedade hipócrita que galga altos lucros com a venda de bebidas e outras drogas; ter compaixão com os idosos que cuidaram da família e agora não têm quem lhes cuide…

Nesta Quaresma viveremos um grande momento para refletir sobre nosso caminho para a conversão. A Vida é Dom e missão. Não se pode viver de qualquer modo e muito menos podemos aceitar qualquer desrespeito para com a vida humana, a natureza e a criação. Nossa casa comum, também reclama da falta de compaixão, da dureza do coração movido pelo lucro avarento. Oração, jejum e esmola terão sentido se, de fato, indicarem caminho de vida nova, de partilha generosa e compaixão permanente com todos os nossos semelhantes.

Não basta olhar como o sacerdote e o levita, muito ocupados em preparar suas pregações, seus cultos. É preciso cuidar, com afeto e compaixão.

 

João Paulo Ferreira Ielo é pároco na Igreja Matriz Imaculada Conceição

 

 

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