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Artigo: Dilúvio em dose dupla

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São Pedro teria aberto as comportas celestiais, talvez pressionados por técnicos de hidráulica insatisfeitos com os baixos salários empobrecidos por falta de reajuste.

E quem pagou pelos desvarios foi primeiro o Rio Mogi Guaçu e depois, em decorrência, a cidade de Mogi Guaçu, encharcada pelo dilúvio em dose dupla que se abateu, deixando-nos em sobressalto e sem defesa. A grande avalanche, devastadora, inédita nos últimos 35 anos, desrespeitou a privacidade das famílias, pôs muita gente em pé e promoveu a expulsão coletiva das áreas inundadas. Palavras experientes, repassadas de sábios verbetes, davam conta de que se tratava de um castigo da natureza, ou a proverbial reedição do dilúvio milenar, sem a presença da Arca de Noé, hoje aposentada pelas lendas.

Se alguém de mau gosto riu do fenômeno é porque estava sem graça, praticando o humor negro, que é a excrescência dos ressentimentos da alma humana. É contracenar com o infortúnio coletivo e para o qual não existe antídoto imediato, não obstante os tratados de prevenção. O medo de afogamento passou pela cabeça de muita gente que esperava pelo pior, por um óbito irreparável na listagem do luto. Dos males, o menor. O dilúvio veio a toda, quase vingativo, esperando encontrar náufragos improvisando no corre-corre do salve-se quem pude. Mogi Guaçu viveu esse drama e sentiu que as horas de agonia eram lentas e avançando com elasticidade interminável.

Curioso é que os gozadores de plantão, meros espectadores da imensa e inesperada correnteza de fúria, apostavam na ideia de que Mogi Guaçu poderia patentear o dilúvio para negociá-lo no mercado clandestino das especulações. Proposta luminosa de seres desligados e inconsequentes. Sugestão amarga de personagem igualmente falidos e desativados da vida.

O espetáculo das águas bem que poderia ter suas imagens depositadas nos arquivos do esquecimento. Seguramente, ninguém pretende rever tanta tristeza e desespero. Nem os heróicos bombeiros e os soldados da Defesa Civil e de outros gestores que se perfilaram no grande multidão assistencial de socorro. Tudo em nome da solidariedade, que é a causa mais nobre de que dispomos como seres vulneráveis e mortais. Mas as almas desassombradas coexistem neste berçário de bairrismo acendrado que cuida de seus valores. O povo guaçuano não entrega o ouro.

Está dotado por benção divida de unidade solidária, que é o despojamento inarredável quando ocorrem as crises. Os passos apresados de moradores correndo para perguntar se o vizinho estava bem, mesmo com o clima de indisfarçável nervosismo. O inimigo invasor era a água em excesso, ela que é dadivosa em seu abastecimento moderado. O volume superlativo da enchente empurrou para longe a generosidade do que, antigamente, era chamado de “precioso líquido“. Põe precioso líquido nisso! Indiferente, a correnteza do rio que nos adotou era marcada por uma estranha irreverência, presente de grego da natureza em fúria. “Um episódio que gostaria de cancelar de minhas lembranças,” exclamou o prefeito Walter Caveanha, que não sabia por onde começa quando o dilúvio começava a deixar suas sobras ascendente na malha urbana ribeirinha.

Restaram o barro pegajoso e os desconsolos que vamos digerindo sem algumas retrospectivas pouco coloridas. Os guaçuanos aprenderam muito com o dilúvio que não pediu licença nem avisou quando iria chegar. A recomposição dos prejuízos e a normalização dos mecanismos atingidos ainda demandam mais algum tempo. Felizmente aí estão os desafios que os guaçuanos sabem enfrentar com coragem e dignidade e ainda com exemplos solidários de amor ao próximo.

 

 

Mário Vedovello Filho é cirurgião-dentista, professor universitário e ex-vereador em Mogi Guaçu

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