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Artigo: O direito de espernear

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Como o direito de espernear é eterno e sacramentado, retomo o uso dessa regalia ofertada ao cidadão comum que, como eu, tenta enxergar o avanço diário de um mar de lama tóxico, pertinaz, que está envolvendo nossa República sofrida, expulsa dos rankings e fora das posições ufanistas e invejáveis de anos atrás.

Recolhi-me ao silêncio sem deixar de ser espectador dos dramas da brasilidade atual. Nesse cenário pululam os absurdos abusivos, descriminalizados na impunidade que dorme por debaixo do tapete. Falta uma cultura política mais arejada, onde a interpretação deveria receber os contornos da sinceridade quase morta no status de uma falência que teima em ficar maquiada por grupos interesseiros que subjugam o ingênuo povo sofredor. Deixei o silêncio, arquivado temporariamente meu protesto, porque entendia que a qualquer hora poderia acontecer algum segmento milagroso e salvador, ou alguma luz messiânica para salvaguardar o que ainda resta do nosso patrimônio de valores. Tranquei a voz preservando, por precaução, os gritos que se perdiam no deserto de iniquidades onde moram os inquilinos do poder palaciano, empobrecidos por surtos diários de contradições e ideias mortas no organismo de uma nação quase moribunda.

Os sentimentos, porém, me convocam novamente a falar. Porque não enterrei a eloquência provinciana que um dia me outorgou representatividade legislativa na Câmara Municipal de nossa querida Terra. Estou avesso e não me situo como mero separatista da alavanca que desemboca, diariamente, em todos os quadrantes. A tirania metal existe até nos pesadelos da madrugada, como dizia o poeta Augusto dos Anjos, que esculpia a morte em sua brilhante poesia.

Importante é que haja uma linguagem nova, contundente, para emprestar eloquência atualizada a tudo o que está acontecendo no inventário de barbáries administrativas escancaradas aos olhos dos patrícios. São retalhos sucessivos que vão ocupando o dicionário de burrice “Made in Brasil,” insossa, desfigurada, carimbada de mesmices indigestas.

Bastaria um rápido direcionamento às discurseiras da nossa mandatária ungida por imperdoável tropeço à suprema magistratura do país. Na Conferência do Clima, em Paris, preferiu priorizar o desastre ambiental de Minas Gerais, cuja intensidade deve servir para alterar a cor de um curso d’água que, relevante em sua bacia hidrográfica, se chama Rio Doce. A incoerência personificada numa infeliz oratória, montada em palco cujo entorno foi deflagrado por insano terrorismo acionado por metralhadoras fanáticas.

Recomponho-me, buscando ser espectador, porém sentindo aquele sentimento de indignação que se manifesta por atacado no cidadão brasileiro injustiçado.

As barbáries administrativas despencam na edição interminável de medidas corretiva sem efeito, sem lucro para a nação espoliada e tensa.

Pego carona no barco quase adernado e com acenos pedindo o socorro agonizante da salvação. Questiono até os deuses para rogar uma solução mágica, talvez reconfortante, onde algum oásis poderia nos livrar de tantas penitências.

E os rombos, repetitivos, a executarem a sangria nos cofres vazios e combalidos. O saldo negativo, no vermelho, expulsou o resto das esperanças. Nos suspiros das almas que ainda se insurgem, poderia brotar alguma dose tranquilizante para, pelo menos, prorrogar a agonia que chega travestida de inflação galopante, mas maquiada, de desemprego forçando aos cortes drásticos no já baixo poder aquisitivo. O PIB transfigura-se em arremedo esfacelado, quase irrecuperável e sombrio em suas perspectivas para 2016. Os profetas do caos já vociferam verbetes manjados de fatalismo. E os brasileiros pagam ingressos, em forma de carga tributária, para assistir ao gigantesco espetáculo do desmonte de valores. Tudo na antessala da falência.

 

Mário Vedovello Filho é ex-vereador em Mogi Guaçu

 

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