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Artigo: O prego, a tábua e a saudade

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Nestes tempos terríveis de pandemia pelos quais a humanidade está passando, sem intenção, ou melhor, por falta de opção, nosso tempo ocioso infelizmente aumentou, o que acabou fazendo com que nossa mente vá buscar no passado, coisas que ocorreram, boas ou más. Claro que, como todos nós, as situações vividas, parentes queridos e lugares acabam aflorando pela saudade e melancolia, sempre oportunistas a nos importunar, bem como trazer boas recordações.

Amigos se foram e outros continuam, graças a Deus. Os bons, como os maus, são inesquecíveis. Dos primeiros tenho grande apreço (ainda bem que são a maioria) e dos segundos concluo que não mereceram sequer um culhonézinho de minha consideração. Especificamente vou me ater a alguns personagens e a um lugar especial.

O lugar era a fazenda Cachoeirinha, meu epicentro da infância que por obra do destino, foi adquirida por aquele que viria a ser o meu avô materno daquele que seria meu avô paterno, respectivamente, Orlando e Hermínio (talvez seja essa a origem de minha relação umbilical com a propriedade. Muitos dias de minha infância lá se passaram, especialmente nas férias escolares, uma vez que minha mãe era professora do Grupo Escolar, dividindo-os com meus primos que lá moravam, entre o pomar de mangueiras, jabuticabeiras, laranjeiras, etc, com um lugar específico, um córrego de águas perenes que no final de seu curso entrava num trecho canalizado a céu aberto, construído em alvenaria e concreto e da mesma largura, como uma pequena piscina, e dali se estreitava numa garganta gradeada para percorrer seus últimos metros por um canal menor de onde desembocava numa roda d`água acoplada a um gerador de energia elétrica, salvo engano construído na década de 1.920, tudo localizado a alguns cento e poucos metros da sede.

Anexo a casa sede morava a família do administrador que tinha vários filhos, dentre eles a Dida por quem nutria, com certeza absoluta da reciprocidade, especial apreço. Lá era onde ela lavava as roupas e utensílios domésticos caseiros de sua família, razão pela qual “batizei” o córrego como “Corguinho da Dida”. Os anos se passaram e meu avô teve a oportunidade de vender parte da propriedade, o que me deixou, criança que era, desconsolado e choroso.

Só me conformei com a situação depois que ele me explicou que o “corguinho” ficaria na parte remanescente da propriedade. Mas, aí, o encanto já tinha se quebrado, tanto que não me lembro de ter voltado aquele lugar que gostava de chamar de meu.

Foi meu segundo tropeço da vida ruma à maturidade. O primeiro, infinitamente pior, foi a perda trágica e prematura do meu querido e inesquecível irmão José Rubens. Mas o que tem a ver o prego, a tábua e saudade com isso?

Explico: recentemente um amigo perdeu seu pai já avançado na idade e como não pude comparecer a seu velório, telefonei-lhe para transmitir meus pêsames e da minha família e disse que seu papel como filho foi muito bem cumprido, tanto que sou testemunha de sua dedicação a ele.

Educadamente me agradeceu e deu a seguinte, tão singela quanto profunda analogia a qual dei uma floreada. B…, certas coisas da vida são comparadas a você bater um prego numa tábua.

Um belo dia alguém vai lá e tira o prego. O prego se foi e o buraco, por mais que você passe cera, resina e tinta, permanece para sempre.

É a saudade!

 

José Roberto Bueno Filho é engenheiro civil e natural de Mogi Guaçu

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