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Artigo: Pai: essa palavra de luxo

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“Pai / Pode ser que daqui algum tempo / Haja tempo pra gente ser mais / Muito mais que dois grandes amigos / Pai e filho talvez”, diz Fábio Jr. em sua canção mais famosa, Pai. O que essa palavra representa em sua vida? Você ainda tem pai vivo? Chegou a conhecer seu pai? Porque há quem não tenha conhecido seu pai, nem tenha o nome dele em seu registro. Fora isso, será que você conhece mesmo seu pai? Seu pai, que, mesmo calado, segue ao lado.

“Diante de ti homem não sou, não quero ser. És pai do menino que eu fui. / Entre minha barba viva e a tua morta, todavia crescendo / Há um toque irrealizado.”, diz Vinicius de Moraes num poema, uma elegia, que homenageia seu pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes. Quantos de nós ainda somos meninos diante do pai? Quantos ainda nos rendemos ao toque nem sempre suave das mãos paternas que ainda tentam um carinho no menino que já não é?

Meu pai, assim como eu, se chama Olivaldo. Comerciante, filho de comerciantes, em Aguaí, nossa vizinha, entre latas de óleo e caixas registradoras, viu sua mãe morrer cedo e seu pai ficar com a filharada. Lindolfo Gomes da Silva, o “Dorfo” do Mercado, meu avô, contou com a ajuda da tia Cida, mulher do tio Laércio, para acabar de criar meu pai e seus irmãos. Então, assim como acontece em muitas famílias, ela também foi meio pai de seus cunhados.

No meio dessa pandemia a que forçosamente nos vemos, vemos que, infelizmente, muitas mães e, também, muitos pais de família perderam seus empregos, ficando à mercê da situação social do País. Assim, em busca do pão de cada dia, entre um e outro auxílio emergencial, o pai de muitos meninos e meninas sai todo dia à caça de ofício, um trampo que dê a quem precisa comer e alimentar seus meninos a dignidade de outrora, o sentido da vida.

“Lá longe meu pai campeava / no mato sem fim da fazenda. // E eu não sabia que minha história / era mais bonita que a de Robinson Crusoé.”, nos conta o poeta Drummond em seu belo poema Infância. Infância, onde começa a vida. À qual, nossos pais tentam dar o sentido de que falei. Pois, seja no campo, seja no asfalto, pai é sempre pai, isto é, aquele homem no qual devíamos nos espelhar e buscar compreender. Nem sempre compreendemos.

‘Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, / ela falou comigo: / “Coitado, até essa hora no serviço pesado”. / Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água / quente. / Não me falou em amor. / Essa palavra de luxo.’, diz Adélia Prado em Ensinamento. Luxo. A palavra pai também deveria ser uma palavra de luxo e expressar um pouco do quanto de significado ela tem. Tanto que Deus é chamado assim, Pai. Pai Eterno, Pai de Todos, creia você, ou não.

Crer em seu pai, ou em quem faça as vezes desse papel em nossas vidas, deveria ser de praxe a todos nós. No entanto, nem todos os pais correspondem a essa imagem. Aí, temos os casos de abuso, nada agradáveis de ver. O mundo é imperfeito, e há muita injustiça e desequilíbrio vigente. Gente que, mesmo sem estar apta a ser pai, ajuda a dar à luz milhares de filhos que acabam meio sem paz nesse mundo. A esses filhos, feito um pai, muito carinho.

Pai, o símbolo que causou alvoroço numa propaganda recente de uma famosa marca de cosméticos nacional, que estampou figuras paternas nada convencionais em sua campanha de vendas para o Dia dos Pais deste ano. Ano em que tantos pais, sejam lá de que tipos sejam, tiveram de se reinventar e tentar buscar um meio de darem alento a seus filhos, também perdidos em meio à crise que se instalou. E ainda tem o isolamento, E a tão sentida ausência.

“Pai / Senta aqui que o jantar tá mesa / Fala um pouco, tua voz tá tão presa / Nos ensina esse jogo da vida / Onde vida só paga pra ver”, continua Fábio Jr. em sua conversa musical com o pai, que, taxista, foi morto num assalto. Morte. Ah, como essa palavra está em alta, meu Deus! … Não, não é de morte que quero falar. Nem de pais esquecidos em asilos, em abrigos, em casas de repouso. Quero é o pai que pode dar e receber amor, um pouco de luxo.

Olivaldo Júnior é poeta, escritor, músico popular, radialista, professor e trabalha como oficial administrativo júnior na secretaria da escola “Professor Cid Chiarelli” da Feg

 

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