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Deficiente visual navega sem fronteiras

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A prova de que só basta querer para aprender é o exemplo de vida de Paulo Sérgio Machado, 44 anos, que começou a perder a visão a partir dos 10. Aos 17 anos já estava completamente cego em decorrência do deslocamento das retinas de ambos os olhos. Quando viu que estava ficando muito em casa, isolando-se do mundo, o jovem decidiu aprender Braille e locomoção.

Ficou um ano como interno de uma instituição campineira. Hoje, mais do que ler e se locomover sem dificuldades, Paulo Sérgio dá aulas de informática, formata e conserta microcomputadores. Começou como voluntário e, atualmente, trabalha no projeto “Vida Iluminada” da Unimed Regional da Baixa Mogiana.

Paulo Sérgio dá aulas de informática por meio de leitor de tela
Paulo Sérgio dá aulas de informática por meio de leitor de tela

AJUDA

Leitor de tela são os olhos dos deficientes

O aparelho de computador, seja o desktop ou teclado, usado pelo deficiente visual em nada se diferencia daquele usado pelos videntes. O que muda é que o mouse não é utilizado, sendo todos os comandos explorados pelo teclado. Por isso, é fundamental o conhecimento minucioso das teclas, o que possibilitará a execução dos comandos com perfeição.

Para utilizar o computador, os deficientes visuais fazem uso de um leitor de tela, sendo que há alguns disponíveis gratuitamente. No caso de Paulo, ele utiliza o Virtual Vision e o NVDA que permitem ter a informação à medida que se usa o teclado. “Há ainda o DOSVOXX que é um sistema operacional dentro do Windows com alguns aplicativos que são interessantes para os iniciantes ou crianças”, detalha o professor.

Como conhecer o teclado é essencial, a digitação é o primeiro passo nas aulas. Como o teclado não possui qualquer diferenciação, o deficiente visual deve se guiar pela posição das mãos. “Em todos os teclados as letras “F” e “J” têm uma marca em alto relevo. Posicionamos o dedo indicador nestas letras como todo mundo para saber a posição das demais teclas”, revela Paulo. À medida que o texto é digitado, o editor de texto informa a letra que foi teclada, o que permite fazer a correção ortográfica. A leitura pode ser feita de forma contínua ou com o uso das teclas que indicam as setas, direcionando para onde se quer ler, permitindo formatar ou editar.

Na avaliação de Paulo, a única coisa que ainda deixa a desejar em relação à informática é que o programa ainda não descreve a imagem exibida. Mas ele acredita que a tecnologia caminhe para sanar esta falha. “Já tem aplicativo de Android que fotografa e fala qual é o objeto”, justifica.

INTERNET

Para navegar na internet,  os deficientes visuais utilizam dos mesmos sites de busca, pois os programas instalados no equipamento, literalmente, leem os textos. Aliás, além dos textos, leem os links abertos, enfim, tudo o que aparece na tela. O mesmo vale para os e-mails e redes sociais, exceto no Facebook que ainda traz algumas limitações.

Isto porque, segundo Paulo, alguns sites trazem textos codificados o que interfere no programa de leitor de tela. “Ele identifica como imagem e me diz que é um gráfico”, exemplifica. Para o professor, é essencial que os programadores deixem de criar sites com estas codificações.

No curso ofertado pelo projeto “Vida Iluminada”, Paulo dá aulas individuais e tudo começa com o ensino da digitação. Há alunos que em cinco meses estão aptos a usar o computador, mas outros demoram um pouco mais. “É uma questão de habilidade”, analisa.

Ele diz que depois de aprender todos os comandos do teclado, o deficiente visual perceberá que pode executar comandos de forma mais rápida do que os videntes o fazem com o uso do mouse.

Para Paulo, é melhor o deficiente visual usar notebook ou computador nos estudos do que a máquina Braille, mas defende a aprendizagem do método que é essencial para a leitura, por exemplo. “Braille é como se fosse uma honra. Ortografia e gramática, por exemplo, só se aprende com o Braille porque o leitor de tela não te fala a pontuação”, argumenta o professor que também ensina este método.

Paulo diz que força de vontade foi fundamental em sua decisão
Paulo diz que força de vontade foi fundamental em sua decisão

 

 À LUTA

Família simples não sabia como ajudá-lo

“Acham que a gente é superdotado”. Esta foi a resposta de Paulo quando questionado se as pessoas ficam surpresas ao saberem que é professor de informática, além de fazer formatação e consertar computadores. Ele alega que não há nada de extraordinário nisso. Isto porque, analisa que, após a perda da visão, outros sentidos têm de ser usados para que se localizem no mundo, com isso olfato, tato, paladar e audição ficam mais aguçados.

Mas Paulo reconhece que teve força de vontade quando decidiu que precisava aprender a ler, escrever e partiu para Campinas. “Tem deficiente que adora encostar-se a uma assistente social”, comenta. Sensato, o professor diz que há pessoas acomodadas mesmo sem nenhuma deficiência. E admite que explorar este mundo sem a visão é mais difícil para aqueles que perdem este sentido após certa idade em decorrência do diabetes, por exemplo.

De família simples, egressa da roça, Paulo não teve esta iniciativa através dos pais, pois ele próprio é quem tomou suas decisões e, como ele mesmo fala, começou a vida. Sem dinheiro para comprar uma máquina Braille e estudar, ele soube de uma pessoa que tinha um computador com programa que permitia o uso por deficiente visual. Foi à luta, concluiu o ensino médio e, em seguida, fez curso de informática, em Campinas, e se ofereceu para trabalhar como voluntário no projeto “Vida Iluminada”. Depois de quatro meses, o trabalho voluntário deu lugar ao emprego.

Paulo é casado há 22 anos, mas não tem filhos. A esposa tinha baixa visão e, há pouco tempo, está completamente cega. Paulo, agora, é quem a ajuda a enfrentar esta nova etapa e sabe o quanto é difícil. “É a perda de membros muito importantes”, comenta.

Deficiente Visual - Imagem

 

PROJETO 

“Vida Iluminada”busca inclusão social

A AMU (Associação Mulher Unimed) foi criada em abril de 1999, sendo uma iniciativa de responsabilidade social do Sistema Unimed, tendo por objetivo atender pessoas com deficiência visual ou baixa visão e suas famílias. É, portanto, a responsável pelo projeto “Vida Iluminada” que visa promover a inclusão social, educacional, moral e profissional de pessoas com baixa visão ou deficientes visuais.

O “Vida Iluminada” oferece oficinas e aulas nas áreas de informática, braile, música (Coral Vida Iluminada) e orientação e mobilidade. Há ainda os atendimentos profissionais nas áreas de serviço social, psicologia e pedagogia.

Com isso a AMU visa abrir novos horizontes para este segmento da população, aumentando as oportunidades de ocuparem uma vaga no mercado de trabalho e principalmente de serem inseridos na comunidade e forma autônoma. O projeto é voltado para o desenvolvimento das potencialidades de crianças, adolescentes, adultos e idosos que se enquadrem no decorrente projeto.

O “Vida Iluminada” é aberto a qualquer pessoa que apresente deficiência visual e seus familiares, ou seja, não sendo necessário ser usuário do plano de saúde Unimed. A Amu é coordenada por Liliana Carvalho Araújo, a Lica.

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