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Especial de Aniversário: Região central como cenário de uma vida

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A conversa com o aposentado Carlos Alberto Calmazini, 75 anos, poderia render um livro de memórias. Ele lembra dos fatos passados com precisão, inclusive de datas, e nos faz mergulhar na história de Mogi Guaçu. As histórias narradas por Carlão Calmazini nos faz sentir vontade de ter vivido o que ele e muitos guaçuanos viveram em décadas passadas.

Contando suas lembranças, Carlão Calmazini demostra o orgulho que tem de ser guaçuano. “Sou do tempo em que a praça era de terra com bebedouro de água para os animais. Tinha a festa de São Sebastião com os carros de boi. Depois foi colocado paralelepípedo”, comentou ao falar sobre a vida que levou ao lado da família no Largo da Matriz, que depois recebeu o nome de Praça João Pessoa e, a seguir, por lei aprovada pela Câmara Municipal, passou a chamar-se Praça Rui Barbosa.

O aposentado é filho de Waldomiro Calmazini, o Miro, e de Iolanda Cine Calmazini, e irmão de Ângelo Alberto Calmazini, o Janjão, e Maria Cristina Calmazini. A família viveu na região central da cidade e acompanhou de perto o desenvolvimento do município. Miro faleceu aos 56 anos quando ainda era prefeito de Mogi Guaçu, em agosto de 1972, Janjão em 1992 e Iolanda em março de 2004. “Minha mãe faleceu aos 88 anos onde morava com a minha irmã e foi enterrada lá mesmo, pois já tinha muitos amigos. Meu irmão foi enterrado na Praça da Bíblia junto com o meu pai”, lembrou Carlão ao comentar que a irmã vive em Cuiabá há 35 anos.

O aposentado viveu boa parte de sua vida na região central e conta em detalhes muitas histórias. A padaria “São Pedro” foi assumida por Miro Calmazini em 1936 e foi Carlão Calmazini que deu baixa na empresa em 1994. O comércio ficava na praça central e depois de muitos anos teve entrada pela Rua Apolinário. Carlão Calmazini brincou com os amigos no chão batido e diz que ele e o irmão sempre ajudaram o pai com a padaria. “Depois da morte do meu pai, eu e meu irmão tocamos a padaria que era do tio Francisco Rodrigues e ele passou a padaria para o meu pai e ficamos muitos anos com esse comércio”.

Ainda criança, Carlão Calmazini lembra dos tempos em que foi estudante da escola “Padre Armani” e fala com carinho da professora Nair Vedovello. “Fui aluno e motorista dela. Ela era uma pessoa maravilhosa e brava. Fomos até compadres depois”, comentou ao lembrar da época da escola e dos amigos que jogavam birola onde hoje funciona o ponto de táxi atrás da escola centenária.

 

Coreto

Carlão Calmazini lembra com saudades do coreto e conta que o local era bastante frequentado, principalmente quando acontecia alguma apresentação no local. “A banda vinha tocar no coreto e naquele tempo as moças ficavam de um lado e os moços do outro e davam volta no jardim. Era muito gostoso aquele tempo”, recordou ao comentar que o pai tinha muito gosto pela Cultura. “Meu pai era amante da Banda Marcos Vedovello e podemos acompanhar de perto essas apresentações, as festas de São Sebastião na igreja e até uma congada de Minas ele trouxe na padaria”.

UM SUSTO

Enchente de 70 completa 50 anos

Mesmo após 50 anos, a enchente de 70 é outra memória do aposentado Carlão Calmazini. Ele conta que essa foi a primeira vez que a Padaria “São Pedro” ficou sem entregar pão em toda sua existência. “Chegamos a ter 40 carroceiros que faziam a entrega do pão. Eu tinha dois animais e o beco ficava cheio de carroças. Mas não conseguimos entregar pão durante a enchente de 70 e essa foi a primeira vez que a padaria ficou fechada”.

Carlão lembra o nervosismo que sentiu ao ver a padaria cercada pelas águas que alcançaram uns três metros de altura. Os 15 degraus da escada que davam acesso à residência ficaram encobertos. Embora as águas não tenham entrado na padaria, o comércio ficou fechado por três dias, sem condição nenhuma de abrir as portas antes da água baixar. “Ficamos três dias ilhados. Eu e minha família. Meu pai era o prefeito naquela época, e sofreu muito ao ver toda aquela situação”, conta Carlão.

Inundações pequenas eram constantes no trecho onde morava, mas estava acostumado com a situação. Porém, o que ninguém esperava é o que estava por vir.  “Em 1970, eu estava certo que seria do mesmo jeito. Não esperava que fosse acontecer todo aquele transtorno”.

Para Carlão, a enchente de 70 deixou marcas na história de Mogi Guaçu e também na da família Calmazini. “A rapidez com que a água do rio subiu e transbordou foi impressionante. Ninguém esperava. E ter o meu pai como prefeito daquela época trazia duas preocupações: a enchente em si com todos os transtornos e ainda o fato de ver meu pai sofrendo com tudo aquilo sem ter muito que fazer para amenizar a situação”.

HERÓI

De sorveteiro a prefeito de Mogi Guaçu

Carlão Calmazini fala com orgulho do pai e não esconde que a saudade que sente é enorme. Revela que Miro Calmazini sempre gostou de política, mas que não tinha estudo. Mesmo assim, se destacou e até hoje é lembrado por seus feitos no comando da Prefeitura.

Miro Calmazini vendia sorvete pelas ruas e somente em 1936 é que assumiu a padaria “São Pedro”, doada pelo tio Francisco Rodrigues. A política acabou acontecendo. “Meu pai gostava de política e, apesar de ter estudado só até a 4ª série, era muito inteligente. Foi um homem à frente do seu tempo”, contou com orgulho.

A primeira eleição do pai foi em 1964 contra Carlos Braga de Faria, quando perdeu por 112 votos. “Meu pai perdeu a primeira eleição para o Carlito Braga que tinha o Nico Lanzi de vice. Perdeu por 112 votos e meu pai foi tomando ainda mais gosto”, contou Carlão Calmazini ao recordar que, em 1968, o pai foi eleito prefeito após vencer nas urnas Carlos Nelson Bueno. “Meu pai ganhou com o apoio do Nico Lanzi e tinha como vice o João Vallim. O Carlos Nelson era cartola e meu pai era da viola, pois ele tinha um programa de rádio que tocava viola por mais de 20 anos”.

Porém, antes de encerrar o cargo, Miro Calmazini faleceu em agosto de 1972 e, para o filho, a emoção foi o que provocou a morte prematura do pai. “Meu pai levou a banda Marcos Vedovello para tocar em Socorro e eles ficaram em primeiro e meu pai teve um derrame cerebral. Pra mim, ele morreu de emoção”, contou ao lembrar que o pai foi levado para Campinas, onde ficou internado por 10 dias. “O enterro dele reuniu muita gente e levaram o caixão no alto e a pé da igreja até a Praça da Bíblia”.

 

Legados

Para Carlão Calmazini, o pai deixou um legado não só para a família, mas para a cidade. A Educação foi sua prioridade, assim como ele foi o responsável pelo primeiro Plano Diretor do município. “Um homem que tinha só até a 4ª série, mas que trabalhou muito para a Educação. A paixão do meu pai era lutar pela educação”, citou ao lembrar que outra marca deixada pelo pai foi o Plano Diretor. “Meu pai fez o Plano Diretor para 25 anos e até hoje ele é usado”, comentou ao reforçar que sente saudades do pai. “Sinto muita falta do meu pai. Ele era bravo, enérgico, mas me ensinou a ser direito na vida”, reforçou.

Eleição de 1968

Candidato: Waldomiro Calmazini – O Miro (Arena)

Vice: João Batista Vallim

5.896 Votos

 

Candidato: Carlos Nelson Bueno (MDB)

Vice: Prof. Cid Chiarelli

4.996 Votos

 

Calmazini morreu em 22.08.1972, João Valim o substituiu.

 

 

 

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