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Menino do Itaqui comove o país com irmão no colo

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A foto em que João Victor da Rosa, 12 anos, segura o irmão recém-nascido no colo foi feita pelo pediatra Denis Camilo de Carvalho e postada nas redes sociais em 19 de julho. Foi um momento que comoveu toda a equipe da Santa Casa, porque a mãe dos meninos tinha falecido há alguns dias.

Mas a foto só ganhou repercussão nos últimos dias quando a auxiliar de enfermagem Andreia Totino Chagas, 35, lembrou-se do registro em seus arquivos e decidiu postar comentando que em 16 anos de profissão aquela seria a cena que ficaria para sempre guardada na memória.

Multi Método CanguruO olhar triste do garoto ao fazer o papel da mãe comoveu não só quem está acostumado com a vida e a morte, mas tem emocionado o país. Já são mais de 240 mil compartilhamentos.

Ela disse que lembra quando o médico mostrou a foto em um plantão de domingo e ela, assim como algumas mães que estavam por perto, se emocionaram. “Ao mesmo tempo que tá tudo bem, não está mais. Você passa da alegria de um nascimento para a morte em segundos, de um grito de alegria para o de dor, muito rápido”, descreveu Deia Totino sobre as tristezas e alegrias da profissão.

Dr. Denis disse que aquele dia estava de plantão e ao passar pelo Centro de Cuidados Intermediários viu o garoto ao lado da incubadora com o irmão no colo. “Ele ficou horas enrolado com ele ali, com uma determinação muito grande porque eu vi a tristeza no rostinho dele pela perda da mãe. Parecia que ele queria compensar transmitindo amor para o irmãozinho”, relembrou o pediatra.

 Andreia divulgou a foto e foi visitar a família
Andreia divulgou a foto e foi visitar a família

Susto

A auxiliar de enfermagem só se deu conta do poder da foto que compartilhou quando começou a notar que o celular travava quando acessava seu perfil nas redes sociais. “Era muita solicitação de amizade e não entendia o motivo”.

Foi uma amiga de Deia que descobriu a razão de tanto assédio. Ela mandou um print das curtidas das fotos em perfis relacionados à gestação. Depois a foto foi parar nos sites das principais revistas do país e em sites de notícias de TV. “Então comecei a entrar para ver o que as pessoas comentavam. A ideia era só relembrar e compartilhar o que senti naquele momento. Fico feliz que estão querendo ajudar essa família”.

Dr. Denis também disse que não imaginava que a foto teria um apelo tão forte como esse. “A primeira vez que postei imaginei que iria emocionar muitas pessoas, assim como eu me emocionei, mas do jeito que aconteceu eu não imaginava”

Para o médico, o ser humano, não importa a idade, ainda pode superar as tristezas. Apesar de sermos bombardeados diariamente com notícias de guerras, estupros e diversos tipos de crimes hediondos, para ele é como se o ato daquele menino pudesse trazer de novo a esperança no ser humano.

Multi Método Canguru João Victor
João Vitor ajuda o pai com os cuidados com o irmão Pedro Henrique
Multi Método Canguru João Batsita e João Victor
João Batista deixou o trabalho para cuidar dos filhos, após perder a esposa

AMOR DE IRMÃO

“Era o papel da minha mãe e fiz no lugar dela”

 

O pré-adolescente João Victor é tímido, mas sente muito orgulho ao contar como ajuda o pai a cuidar do irmão Pedro Henrique Pereira, hoje com 2 meses e 20 dias. Ele não precisa mais fazer o método canguru, mas diz que esquenta a água para o banho, ajuda na troca das fraldas e, de vez em quando, dá mamadeira.

Ele está na 5ª série da escola municipal Adélia Calefi Gerbi e diz que os amiguinhos têm curiosidade de saber se é verdade que ele tem aparecido em programas de TV. Ele diz que tem gostado do assédio, mas procura levar uma vida normal fazendo o que mais gosta – tocar violão e jogar bola como zagueiro ou lateral no Clube Cruzeiro onde treina três vezes por semana. Ele também tem ao lado o carinho e ajuda da avó materna, tia e tios, que moram no mesmo sítio.

Mas é possível notar como a mãe faz falta a esse garoto. Ele diz que aconselha os coleguinhas. “Fiquem bastante com sua mãe porque pode ser que um dia ela não esteja mais com você. Cuidem bem dela”.

Ele disse que no dia da foto, tinha ido visitar o irmão que estava internado e pediram para ele segurá-lo usando o método canguru. “Falaram que ia ser bom para o Pedrinho para ele perceber como é o calor do corpo humano. Era o papel da minha mãe e como ela faleceu fiz no lugar dela. Eles pediram para eu fazer o teste e topei.”

Elisangela faleceu em julho, após o parto de Pedro Henrique
Elisangela faleceu em julho, após o parto de Pedro Henrique

Solidariedade

O pai João Batista Pereira, 29 anos, não se sente incomodado com o assédio. “Porque a gente passa a conhecer pessoas que contam o que passaram e isso fortalece a gente”.

Mas a família segue a vida, após a tragédia de perder o esteio da casa. A vida estava voltando à rotina, disse João Batista, quando a foto se espalhou pelo país.

Ele contou que Elisangela entrou em coma logo após o parto e nem conheceu o filho. Depois do 7º mês, ela passou a apresentar hipertensão arterial (eclâmpsia) e foi internada, ficando na Santa Casa por 18 dias até o parto e falecer.

Pedro Henrique nasceu de 8 meses, mas é saudável. João Batista disse que eles sonhavam com o segundo filho e que já planejavam há dois anos, embora soubessem do risco. Elisangela ficou em coma por três dias quando teve o filho mais velho.

Depois da morte da esposa, João Batista também fazia o método canguru até que o pequeno Pedro Henrique tivesse alta.  Depois ele deixou o emprego em uma fazenda no bairro Mato Seco para cuidar dos filhos e aguarda que a Previdência Social libere o pagamento da licença paternidade. Mas para ele é prazeroso cuidar dos meninos. “É maravilhoso ter um filho e muitos abandonam, os filhos são minha vida”.

O médico Denis Camilo e a enfermeira Elaine Almeida explicam os benefícios do Programação de Atenção Humanizada
O médico Denis Camilo e a enfermeira Elaine Almeida explicam os benefícios do Programação de Atenção Humanizada

HUMANIZAÇÃO
Método Canguru é rotina na Santa Casa

Aproximar pais e filhos, incentivar o aleitamento materno e reduzir a mortalidade de bebês. Essa é a proposta do Programa de Atenção Humanizada ao Recém-nascido de Baixo Peso – Método Mãe Canguru. O programa foi implantado na Santa Casa há 16 anos.

O pediatra Denis Camilo de Carvalho disse que, segundo dados de 2012 da OMS (Organização Mundial da Saúde), o método reduz em 50% a morte de bebês com menos de 2 Kg, reduz em 60% os riscos de infecção e em 40% a mortalidade após alta hospitalar, aumenta a taxa de amamentação e o ganho de peso. “E o mais importante: aumenta o vínculo afetivo mãe e filho, reduz os gastos em saúde, diminui os dias de internação e cuidados de enfermagem e a criança fica menos doente”, ressaltou o médico.

O projeto foi idealizado pelas enfermeiras Elaine Almeida e Elisangela Baldin e ‘abraçado’ pela direção da Santa Casa. O método Canguru nasceu na Colômbia. O país tinha um grande número de prematuros e nos hospitais não havia incubadoras. A ideia de aquecê-los com o corpo da mãe acabou dando certo e os benefícios já foram comprovados cientificamente.
O programa começou na Santa Casa guaçuana com o fechamento do berçário e a criação do alojamento conjunto – mãe e bebê no quarto. Assim que nasce e tem o contato pele a pele com a mãe, o bebê segue para o quarto na maca com a mãe. Em sequência foi instalada a UTI Neonatal e a UNCIca (Unidade Neonatal de Cuidados Intermediários – Canguru).

A enfermeira obstetra e mestre em Saúde da Criança e do Adolescente, Elaine Almeida, está há 28 anos na Santa Casa e disse que desde então observa que o método Canguru resultou no sucesso do aleitamento materno. “Isso está relacionado ao contato pele a pele na primeira hora de vida do bebê”, reforça a enfermeira obstetra.
Desde 2012 foi iniciado o método Canguru também com o pai. Por isso, em todo o parto vaginal o primeiro contato canguru é com a mãe, apesar de que o pai fica junto. Nos partos de cesárea, o método Canguru começa com o pai ou avós, para depois com a mãe, assim que ela for liberada para amamentar.

Todo mês são cerca de 120 partos realizados na Santa Casa. Segundo Elaine e Denis, desde então eles percebem que com o parto humanizado houve diminuição de abandono de bebês por aquelas mães e famílias que não aceitavam a gravidez.
Em todos esses anos, foi a primeira vez que uma criança (João Victor) participou do método. “O que me angustiava era saber que ele ficaria sem a mãe, depois de todos esses anos vivendo como filho único. A ideia era então aproximar os dois irmãos.

E hoje percebemos que o bebê já se acostumou bem no colo do irmão. Achamos que era uma forma de amenizar a dor dele”, recorda Elaine que orientou a equipe para quando o irmão mais velho chegasse naquele dia da foto.

 

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