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Preconceito: O dilema da adoção tardia

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Preparar o quartinho para a chegada do bebê. Essa é uma das muitas alegrias que os pais têm com a chegada de um filho. Quando se trata de adoção, então, a palavra bebê é preferência nacional.

Especialistas do setor técnico da Vara da Infância e Família de Mogi Guaçu percebem que muitos casais querem ter o gostinho de acompanhar todas as fases do crescimento de um filho. Há ainda casais que temem a discriminação e escolhem uma criança parecida fisicamente com a família, porque querem mais garantias de aceitação da criança no meio social. Outros não querem crianças mais velhas para não ter de lidar com o passado vivido em outra família ou lidar com uma personalidade já formada. Alguns casais receiam ainda que essas crianças mais velhas queiram, um dia, procurar a família biológica. Querem um bebê porque esse seria como que uma folha em branco a ser preenchida pela história vivida com a família adotiva.

Um fantasma que assombra interessados em adoção, mas que não querem crianças mais velhas é não saber lidar com problemas de comportamento, porque na fase de adaptação a criança ou adolescente pode querer testar a nova família, por exemplo, se o amam realmente. Os pais adotivos devem ter estrutura e entender o que há por trás de birras ou alguma rebeldia. É algo que pode ser trabalhado.

Há casais, como observou a equipe, que adotam para promover um bem à humanidade, e não porque desejam ter um filho. O fato é que essa criança poderá não ser ‘boazinha’ o tempo todo. Aí é preciso aceitar a complexidade daquele pequeno ser e não achar que seja defeito de caráter.

Atualmente, há 42 inscritos na fila para a adoção e metade deles quer crianças de até três anos, o que reflete a tendência nacional. Por isso, crianças acima dessa idade entram como que em um corredor da adoção tardia.

As assistentes sociais Mônica, Maria Helena e Rita, e as psicólogas Maria Aparecida e Mariana, orientam as famílias
As assistentes sociais Mônica, Maria Helena e Rita, e as psicólogas Maria Aparecida e Mariana orientam as famílias

Por essa razão, as crianças e adolescentes que vivem em abrigos têm muitas chances de continuarem nessas instituições até completarem a maioridade. Os dados chocam porque são mais pessoas querendo adotar do que o número de crianças e adolescentes aguardando um lar. No Cadastro Nacional de Adoção e do Conselho Nacional de Justiça, o total de crianças e adolescentes a serem adotados no país é de 6.134 e o número de pessoas querendo adotar é de 34.043.

As assistentes sociais e psicólogas do setor têm a função de fazer o cadastro de pretendentes à adoção. Elas também preparam cursos para turmas de 40 pessoas, que é ministrado há seis anos. Os interessados em adotar são orientados de forma jurídica e passam por entrevistas. “Para que reflitam sobre o passo importante que pretendem dar”, lembrou Mônica Simionato há 22 anos atuando nessa área.

Uma pediatra, inclusive, orienta sobre as principais doenças que podem ou não interferir no desenvolvimento da criança, porque muitos bebês a serem adotados tiveram mães biológicas usuárias de drogas. Casais que tiveram boas experiências com adoção tardia, de crianças mais velhas, incentivam esse tipo de adoção.

Na ocasião da entrevista, três crianças estavam aptas à adoção em Mogi Guaçu. Um bebê que rapidamente seria adotado e dois irmãos, com 10 e 15 anos, respectivamente, que há anos esperam por um lar e uma família.

Em entrevistas com as crianças e adolescentes em processo de adoção é perceptível que elas desejam ser especiais para alguém, falam claramente do sonho de serem adotadas. “Quando vai vir um papai e uma mamãe para mim?”, perguntam.

A equipe diz que é triste ouvir isso e não ter como resolver. “A chave para o sucesso é o desejo do casal. Se a gente força uma adoção e não respeita o desejo do casal, corremos o risco de a criança ficar naquela família e não ser adotada de fato”, argumentou Maria Aparecida.

Apesar dos problemas, as profissionais contam que se surpreendem com lindas histórias de amor. “É uma delícia ligar e dizer: chegou a sua vez e o mais gostoso é quando, tempos depois, eles trazem os filhos para vermos. É incrível como desenvolvem semelhanças físicas e psicológicas”, observam.

A mentalidade da população somente irá mudar com muito acesso à informação. Grupos de apoio à adoção, até artistas, novelas e filmes têm sido ótimas influências. Alguns não compreendem as exigências para adoção e acham que precisam ter casa própria, que não podem colocar a criança em creche, que precisam ter escolaridade de nível superior ou ter dinheiro para ‘passar na frente’.

Veja o perfil dos guaçuanos que querem adotar:

  • Maioria é indiferente quanto à cor de pele;
  • Mas ainda há resistência por crianças negras;
  • Preferência é por meninas;
  • Ainda aceitam crianças até seis anos;
  • 12 dos que querem adotar têm filhos, alguns adotivos;
  • 30 pessoas não têm filhos;
  • Há casais heterossexuais, homossexuais e pessoas solteiras;
  • Média de espera na fila é de quatro anos (para aqueles que querem crianças menores de três anos);
  • Maioria tem um padrão social de nível médio
Multi Adoção
Os pais Rosângela e Marcelo formaram sua família ao lado dos filhos adotivos, Júlia Vitória e Wesley

O SONHO DA ADOÇÃO

Casal deu novo lar para irmãos de 12 e 11 anos

 Marcelo e Rosângela Cruz são casados há 10 anos e há dois anos e meio adotaram Júlia Vitória e Wesley Henrique, que viviam na Casa Abrigo desde bebês. Hoje, os irmãos têm 12 e 11 anos.

Rosângela conta que nunca conseguiu engravidar, mas não ficou angustiada com isso. Nem mesmo procurou saber qual era o problema que causava a infertilidade do casal ou se havia tratamento. Apenas decidiram adotar.

“Eu sempre pensei em adotar, desde solteira, e o Marcelo foi criado pelos avós, então, nossa decisão foi mesmo adotar e deu certo”, conta Rosângela.

Mesmo já tendo em mente que iriam adotar uma criança, tudo não passava de um sonho. Até que, certo dia, conversando sobre o assunto, Marcelo pediu para a esposa ir até ao Fórum para saber do que precisavam.

Foi na palestra ministrada pela equipe da Vara da Infância e Família que o casal decidiu que adotaria crianças maiores. “Eu achava que com o bebê teria de parar de trabalhar, além do fato de que uma criança maior faz mais companhia e nós já sabíamos que tinham crianças maiores esperando por um lar”, confessou Rosângela.

Para a felicidade do casal, a realização do sonho de serem pais adotivos se concretizou cinco meses depois. Mesmo com filhos na pré-adolescência, mais independentes do que um bebê, Rosângela parou de trabalhar. Preferiu ficar em casa e curtir mais a companhia das crianças. Agora, o casal apenas aguarda a finalização do processo de adoção para que as crianças possam levar o sobrenome da família, Cruz. E, se tudo der certo, daqui três anos o casal volta para a fila de adoção para, agora, levar para casa uma criança, um pouco mais nova, com pouco mais de três anos.

Multi Adoção

Adaptação

Para os pais Marcelo e Rosângela, os vínculos afetivos foram se fortalecendo a cada ano. Entre as primeiras visitas, o casal de irmãos já foi adotado. Era Dia dos Pais e Wesley recebeu Marcelo com a lembrancinha que tinha feito na escola. “Foi a primeira vez que ele tinha ali um pai para entregar algo. E está aqui guardada na estante de casa”, contou Marcelo.

Mas ainda é preciso reafirmar a cada dia o amor que eles têm pelas crianças. “Há muita insegurança ainda. Eles têm medo de que vamos devolvê-los. Eles me perguntam: mãe, você nos ama de verdade? Como filhos mesmo?”, contou Rosângela.

A mãe revela que a adaptação ocorre no dia a dia, porque as crianças ainda se comportam, muitas vezes, como se tivessem vivendo no abrigo. É preciso sempre lembrá-los que a casa deles, agora, é a residência de Marcelo e Rosângela e, aos poucos, construir essa realidade na mente e no coração de Júlia Vitória e Wesley.

Quanto ao comportamento, o casal é realista. “Eles fazem arte, bagunça, mas nada anormal. Tudo o que qualquer criança faz”.

Apoio à decisão do casal não faltou. Além do histórico de Marcelo, de ter sido criado pelos avós, uma tia dele também tem filha adotiva. A mãe de Rosângela, por ser a mais velha, também criou os irmãos. Assim, sem neuras e com muitos bons exemplos, Marcelo e Rosângela constroem a família que sempre sonharam.

Multi Cac Elisabethe Adoção
Elizabeth é presidente do CAC
Multi Cac Adoção Luciana
Luciana Zacariotto é diretora do CAC

 

 

 

 

 

 

 

“CASA ABRIGO”

A rejeição sentida na pele

 Atualmente, a CAC (Casa Abrigo de Mogi Guaçu) mantém quatro unidades e 40 abrigados entre crianças e adolescentes. Todos são vítimas de abandono ou maus-tratos.

Crianças mais velhas e adolescentes veem diminuir a cada dia as chances de ganhar um lar.

A presidente da entidade, Elizabeth Aparecida Jordão de Oliveira, lamenta ver tantas crianças à espera de uma família. É como se fossem ‘mercadorias’ que precisam atender às exigências do ‘cliente’ – não podem ter irmãos, não podem ter problemas de saúde, qual é a cor da pele?

Beth ainda acredita que interessados em adotar devem estar livres de preconceitos. “Um casal chegou a me dizer que não queria a criança porque tinha asma. Como se isso fosse defeito! Será que tenho um coração disponível ou quero uma boneca? Se quero escolher já não estou adotando”, argumenta.

Embora o número de pretendentes sempre seja maior do que as crianças em abrigos, todos tem como ideal criança, lembrou a diretora Luciana Zacariotto Ricci. “Os meninos têm que ser loiros, olhos azuis e até, no máximo, três anos e esse não é o perfil da população em abrigos”.

Para elas, é preciso que o Conselho Nacional de Justiça modifique os itens no questionário de adoção. “Porque se você tem um filho biológico, você não olha para isso, se ele tem problema de saúde, qual é a cor da pele”, compara Luciana.

Elas lembram até de um caso de ‘devolução’ da criança. “Para adotar tem que preparar o coração, é doloroso para a criança. Filho é filho, não se devolve. A criança sofre duas vezes e é até pior”, retrucou Beth.

Por isso, o trabalho do abrigo é sempre tentar reintegrar a criança ou adolescente à família biológica. Quando esta família, mesmo após acompanhamentos, não oferece condições de receber a criança ou adolescente novamente, então, dá-se início ao processo de adoção.

Diante disso, Beth dá o recado para quem deseja adotar: “Faça a pergunta: eu quero mesmo adotar? Não se fixar na ideia de que vai ser tudo bonito, que vai ser só alegrias. Mas fixe que aquela criança precisa de um lar e de amor”.

Para Beth e Luciana, muitas vezes, o sucesso da adoção depende da criação que será exercida pelos pais adotivos.

Alguns, infelizmente, estão atingindo a maioridade e não tem como permanecerem no abrigo e ainda não sabem para onde irão. Isso causa ansiedade. Tempos atrás, famílias voluntárias ou de funcionários da CAC é que abrigavam esses jovens que deixaram o abrigo.

Em Mogi Guaçu, se faz urgente a criação de uma república para esses jovens. Pela previsão de crescimento dos adolescentes, Beth e Luciana observam que trata-se de um projeto que não há mais como adiar. Em 2016, será o 4º ano em que os custos para essa unidade entram no orçamento, cerca de R$ 350 mil. O repasse é municipal e feito pela Secretaria de Promoção Social.  

Conheça as unidades da CAC:

Casa dos Bebês – 0 a 3 anos – 8 crianças;

Casa de Irmãos (meninos e meninas) – 4 a 11 anos – 10 crianças;

Casa dos Meninos – 12 a 18 anos – 9 adolescentes;

Casa das Meninas – 12 a 18 anos – 13 adolescentes.

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