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Sobrevivente: Vítima, Adriana espera por julgamento de seu agressor

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Adriana Maria Braga, 42, sabe muito bem o que é ser vítima de violência doméstica. Em outubro de 2018, ela quase morreu ao ser violentamente atacada pelo ex-marido Benedito Edson Moreira, 52, que não aceitava o fim do casamento de 27 anos que havia chegado ao fim em maio do mesmo ano. A tentativa de feminicídio aconteceu em frente a casa de Adriana, no Jardim Bandeirantes, onde ela morava. No dia em que estava saindo de casa para entrar no carro da família e ir registrar um segundo Boletim de Ocorrência por ameaça, ela foi surpreendida no portão pelo ex-marido que chegou com um revólver calibre 38 nas mãos dizendo que ela iria morrer. Desesperada e vendo que o agressor não atenderia o pedido de parar, Adriana saiu correndo pela calçada, mas, infelizmente, não conseguiu ir muito longe e foi alvejada com um primeiro tiro no abdômen e outros dois tiros na têmpora. Apesar dos graves ferimentos, Adriana lembra que não perdeu a consciência e contou que já no chão e baleada, o ex-marido tentou de qualquer forma colocar fim a sua vida. “Ele colocou a arma na minha cabeça e me disse: – Você tinha um rostinho bonito, mas não vai ter mais”, relatou.

O agressor tentou disparar mais vezes na testa da ex-mulher, mas a arma de fogo falhou e ela recebeu diversos chutes na cabeça. Não contente, Moreira apontou a arma em direção a irmã de Adriana, que junto com os pais que estavam dentro do carro presenciaram toda a cena do crime. Pela segunda vez, os tiros falharam e o agressor entrou no carro e antes de fugir atropelou Adriana, passando em cima de suas pernas. “Tudo o que eu pensava é que eu não queria morrer naquele momento, eu queria viver com minhas filhas e meus netos”, compartilhou Adriana que, após ser socorrida para a Santa Casa, ficou um mês hospitalizada, cinco meses usando uma bolsa de colostomia e outros três meses reaprendendo a andar e falar. Além disso, ela perdeu um metro do intestino, ganhou várias cicatrizes.

Histórico

Assim como acontece na maioria dos casos em que mulheres são vítimas de seus companheiros, Adriana compartilhou que o ex-marido sempre teve um perfil autoritário e era muito ciumento. Desde o início do relacionamento Adriana era agredida fisicamente e emocionalmente, tanto que era proibida, por exemplo, de trabalhar e falar sozinha ao celular. Porém, ela contou que, mesmo sabendo de que precisava pôr um fim no relacionamento, não conseguia por causa das constantes ameaças. “Ele falava: larga de mim para você ver se eu não te mato”, completou Adriana que ao se ver presa ainda tentou fazer o casamento dar certo. Depois de algum tempo vieram as duas filhas do casal, e com isto, ela se sentia mais limitada. “Eu tentava viver bem com ele por elas, mas chegou uma hora que eu não gostava mais dele e a situação ficou insuportável”, relatou. Com o passar dos anos e com as filhas já criadas, Adriana decidiu se separar. Segundo ela, a princípio, o ex-marido aceitou assinar os papéis do divórcio, mas a história que parecia estar resolvida começou a ganhar novos capítulos de tortura. Nos cinco meses de separação, Adriana e a família recebiam ligações constantes de Moreira que ameaçam todos de morte. Ela conta que no dia em que ele tentou matá-la ele passou diversas vezes na rua de sua casa e ia na casa da própria filha dizer que mataria a mãe. “Só que a gente nunca acredita”, enfatizou Adriana. Depois de tentar matar a ex-mulher, Moreira também tentou se matar com tiros na orelha. Ele ficou hospitalizada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e assim que se recuperou e recebeu alta foi preso. Hoje, dois anos após a tentativa de feminicídio, ele segue preso em Hortolândia aguardando por seu julgamento que já foi adiado duas vezes por conta da pandemia.

Incertezas

Adriana tem sentido os reflexos da crise da Covid-19 em seu caso. Isso porque, ela vive apreensiva pela realização do julgamento que já deveria ter acontecido. “Eu tenho medo dele sair da cadeia e tentar de novo”, frisou. O sentimento dela se explica pelo fato de uma única vez as filhas terem ido o visitar e ele não ter demonstrado arrependimento pelo que fez nem ter pedido desculpas. Ela avalia que a separação poderia ter sido amigável e que o ex-marido deveria pensar em viver bem com as filhas e os netos. “Eu perdoo ele, mas não confio nele e não aceito o que ele fez comigo e minha família. Eu torço para a lei tomar conta dele e Deus fazer ele mudar”, compartilhou Adriana. 

Recomeço

Sabendo muito bem o que passou, Adriana deixou um alerta às mulheres que são vitimas de violência. “Não se prendam a nada, nem a filhos, e busquem ajuda para conseguir por fim de maneira segura a situações como estas”. Adriana também compartilhou que apesar de todo sofrimento e angustia está finalmente tendo um recomeço em sua vida amorosa. “Tenho um marido maravilhoso, um homem de fé inabalável que junto com minha família me apoia e me dá segurança. É sim possível recomeçar e acreditar no amor” frisou. (RL)

REALIDADE LOCAL

Isolamento Social aumentou casos em Mogi Guaçu

O delegado seccional José Antônio Carlos de Souza fez um levantamento que reforça que, assim como acontece na maioria do país, Mogi Guaçu também tem registrado um aumento nos casos de violência doméstica, de acordo com a Lei 11.340/06, a lei Maria da Penha. Ao divulgar os dados do município para a Gazeta, Souza esclareceu que todos os delitos por conta da pandemia caíram substancialmente, exceto os crimes de violência doméstica que subiram em comparação com o mesmo período do ano passado. Os números são referentes ao período de março a agosto deste ano.

O delegado seccional ressaltou que os números mostram um aumento considerável, principalmente, com relação aos flagrantes. Para ele, o fato do período de pandemia exigir um isolamento social, quando a mulher precisa conviver mais tempo com seu companheiro, ocasionou o aumento das violências executadas por conta do gênero. Com isto, Souza reforça que toda mulher deve tomar uma medida assim que ver os primeiro indícios de violência contra ela. “A vítima precisa mudar o seu comportamento e buscar ajuda acionando as forças de segurança no 153 e 190”, frisou.

Para o seccional, a denúncia é uma arma poderosa contra os agressores, seja ela feita pela própria vítima ou por um vizinho, amigo ou familiar que desconfie de qualquer situação. “Eu costumo dizer que o Brasil tem 520 anos, ainda está evoluindo, ainda estamos em um aprendizado e vamos conseguir avançar”, pontuou o delegado. Souza também acredita que os respeito à família e a não violência, seja ela contra quem for, deve ser um assunto a ser ensinado as crianças desde cedo, já na escola. (RL)

Inquéritos Policiais instaurados:

2019: 236 inquéritos policiais foram instaurados no período, com média de 39,3 inquéritos por mês.

2020: 290 inquéritos policiais foram instaurados no período, com média de 48,3 inquéritos por mês, o que representa um aumento de 23%.

Flagrantes

2019: 20 flagrantes no período, com média de 3,3 por mês.

2020: 37 flagrantes no período, com média de 6,16 por mês, o que representa um aumento de 85%.

Medidas Protetivas:

2019: 74 medidas protetivas foram solicitadas no período, com média de 12,3 MP por mês.

2020: 96 medidas protetivas foram solicitadas no período, com média de 16 por mês, o que representa um aumento de 29%.

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